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Na questão ambiental o meu lugar é o mundo

Um lugar para chamar de meu

Imagine as tribos ao longo do rio Nilo há milhares de anos. O rio era sua força vital, mas era um aliado imprevisível. Pouca chuva, e a fome mataria muitos; chuva demais, e a inundação destruiría suas aldeias. Nenhuma tribo poderia resolver isso sozinha, somente juntas poderiam cavar centenas de quilômetros de canais para conter o gigantesco rio.

Utilizaram o dom de olhar através do tempo – a nossa capacidade de reconhecer e prever padrões –, e produziram a partir de muito esforço e tempo aquilo que julgavam necessário para aproveitar tudo que o Rio poderia oferecer. Observando a nascente podiam prever secas e inundações, e desenharam na argila os canais a serem cavados. A necessidade e a criatividade uniram tribos que aos poucos se tornaram uma única nação. Foi então que finalmente dominaram o poderoso rio Nilo.

Os antigos povos da região que hoje é o Egito foram responsáveis por um dos mais memoráveis feitos de engenharia da história, uma engenharia capaz de levantar importantes questões filosóficas. Uma dessas questões surge a partir da emergência dos primeiros agrupamentos e civilizações: afinal, qual é o nosso lugar no mundo?

Para tentar responder a isso usemos a história das tribos em volta do Nilo como um exemplo do caráter efetivo da imaginação. A partir desse exemplo seremos capazes de relacionar os conceitos de criatividade e de sociedade para encarar a imaginação como a capacidade de transformar a realidade.

Com isso em mente, tomemos os pensamentos do filósofo Vilém Flusser e do historiador Yuval Harari.

O primeiro pensamento diz respeito à qualidade humana de prever realidades a partir da observação e da imaginação. Por exemplo, quando os escribas e sacerdotes estudavam o comportamento do rio para predizerem seus momentos de maior ou menor fluxo. Flusser chamou de “o olhar do designer” (2018). Um dom dado à pessoas que os antigos chamavam de profetas e que hoje chamamos de “designers”. Estou falando da natureza criativa que surge a partir de uma urgência, os problemas que nos fazem criar.

O segundo pensamento trata da importância do “problema” como um motivador para a transformação da realidade. Afinal, são também os problemas que explicam como provavelmente se desenvolveu o processo de construção do que hoje entendemos como nação. É claro que para algo tão significativo o problema do qual falamos é basicamente sobreviver. Pequenas tribos tiveram que se reunir em um grupo muito maior para lidar com a poderosa natureza e seus efeitos devastadores (Harari, 2015). Conviver se tornou um imperativo à vida. 

Vemos que, diante da necessidade, inventamos um jeito de controlar o incontrolável, ou talvez, criamos um jeito de lidar com os problemas que nos ameaçam observando, percebendo, imaginando, testando, comunicando e ajustando o que se tornaram novas ideias, cada uma delas, novas em seu próprio tempo. Ideias que depois construíram a nossa história enquanto humanidade.

Mas daí, precisamos fazer um salto de séculos nessa história, para chegar na aurora do iluminismo. É nessa época que outros problemas ou “outras exigências do real” nos fizeram inventar aquilo que ficou conhecido como a modernidade. Com ela, nos vimos diante da questão profundamente marcada na origem do sistema no qual vivemos hoje.

Com a modernidade nos divorciamos da natureza (Morin, 1973).

O lugar das abelhas

Agora eu peço emprestado o exemplo que ouvi no segundo episódio da terceira emporada 3#02 do podcast Esticando a Baladeira. Nesse episódio Eugênia trouxe uma pequena história logo no início do programa:

Ela contava sobre quando surgiram abelhas na escola onde seu filho estuda. Diante do ocorrido os pais foram chamados para esclarecer a situação e discutir sobre possíveis soluções para retirar as abelhas sem impactar muito na existência daqueles pequenos seres produtores de mel. Nessa conversa Eugénia narra ter ouvido da mãe de um dos alunos a seguinte sentença: Se não dá pra controlar tem que expulsar a natureza!

Essa frase é emblemática, justamente porque consegue sintetizar séculos de pensamento. Algo tão profundamente entranhado no fundo da mente coletiva de nossa sociedade que chega a ser difícil sequer questionar.

Estou falando sobre a cisão entre cultura e natureza.

Afinal, quando foi mesmo que a gente começou a achar que a humanidade é diferente do resto do mundo?

Que processo transformou pequenas comunidades em harmonia com a natureza, em grandes nações engajadas na ideia de um progresso e de um avanço industrial e tecnológico avassalador? Se antes essas comunidades caçavam animais numa velocidade que atrasaria o processo de extinção, e davam tempo da terra se recuperar após cada período de plantação; com a modernidade, diferentes espécies estão extintas e milhares de hectares de florestas foram soterrados debaixo de cimento e de asfalto numa velocidade nunca antes experimentada.

Alguns estudiosos trabalharam sobre como e porque isso aconteceu. Uma dessas pessoas é Edgar Morin, pseudônimo do antropólogo e filósofo francês Edgar Nahoum. Autor que trouxe, em sua época, uma perspectiva inovadora para a questão. Nahoum discute a Modernidade a partir dos estudos que fez sobre a história, a cultura e os comportamentos humanos. Em meio a um extenso conjunto de argumentos ele se perguntou o mesmo que nós: afinal, quando foi que começamos a pensar que somos diferentes do resto da natureza?

Com essa questão Nahoum colocou em dúvida o próprio conceito de humanidade, ou pelo menos ele duvidou da ciência que a estuda: a antropologia. O autor trouxe à tona algo que julgava perdido e reuniu todas essas ideias num livro como um nome sugestivo: Paradigma perdido: ensayo de bioantropologia (1973).

Para Edgar (Nahoum) Morin perdemos a nossa ligação com algo do qual nunca nos desconectamos realmente. Afinal, fazemos parte e, mai do que isso, dependemos dos sistemas naturais para existir.

O meu lugar é diferente do seu

O livro que consultei foi escrito em espanhol e, não saberia dizer bem o porquê, mas nessa edição optaram pelo subtítulo ensayo de bioantropologia. Uma escolha mais pragmática talvez, mais direcionada ao público leitor que a editora julgava ser o mais interessado na obra. A edição publicada pela Editora Europa-América utilizou um subtítulo mais adequado à questão principal do livro: a natureza humana.

O título do livro é “o paradigma perdido”, mas esse subtítulo em português, novamente: “a natureza humana”, é um intrigante trocadilho, e eu adoro trocadilhos. Vamos prestar atenção nas palavras, é uma expressão comum: natureza… humana… Se você for ler ou já leu o livro deve ter tido outras compreensões mas, da minha perspectiva, o que Edgar faz é brincar com a gente. Nos fazendo perceber que essa diferença entre humano e natural é falsa. Sempre foi. Nós é que nos acostumamos, ao longo de centenas de anos, a tornar isso “natural”. Olha aí o jogo de palavras de novo! Desculpa, trocadilhos são irresistíveis para mim, mesmo quando percebo que só eu acho graça. Mas, voltando ao nosso argumento…

Edgar coloca no seu livro os contrastes que a falsa dicotomia entre natureza e humanidade revelam. E ele usa para tanto a antropologia.

Em contraste com uma antropologia que separa o homem do animal, ele pretende compreender as articulações entre o biológico e o antropológico.

Em contraste com uma antropologia que opõe natureza e cultura, ele mostra que a chave da cultura se encontra na nossa natureza e que a chave da nossa natureza se encontra na cultura.

Em contraste com uma antropologia que encara o tal homo “sapiens” como um ser puramente racional – objetivo, singular e criador de utensílios e tecnologias – Edgar lembra do caráter onírico da humanidade. Lembra que essa mesma espécie também criou a linguagem e a cultura, elementos tão subjetivos e tão plurais. 

Ele consegue demonstrar que o homem fornece ao mundo o mito, a magia, a imoderação, a desordem, e que a sua profunda originalidade consiste em ser um animal dotado de despropósito. Que pode ser qualquer coisa que quiser, inclusive nada. (Leiam: A Utilidade do Inútil, 2016)

Para além do biologismo – ideia algumas vezes estreita e fechada da vida; e do antropologismo – concepção quase sobrenatural da humanidade; Edgar inventa uma teoria aberta da natureza humana, baseada na ideia de auto-organização e numa lógica da complexidade.

Edgar entende e explica que “natural” e “humano” nunca estiveram separados, mas que, de algum jeito, nós inventamos que não éramos parte dessa tal natureza, como uma desculpa para tentar exercer controle e poder sobre ela. Segundo Edgar, com isso também inventamos a tal ideia tão difundida de “progresso rumo ao futuro”.  Algo que nos foi prometido como um destino nobre, sempre melhor e mais “evoluído” – como se a evolução pudesse ser encarada exclusivamente como positiva. É disso que se trata, a evolução é um fenômeno aleatório que demonstra certa lógica e padrões, mas que se apóia nessa aleatoriedade para produzir a variabilidade genética que propicia a vida. A evolução não é, nesse sentido, positiva ou negativa, ela simplesmente é. Ao duvidar dessa ideia de um progresso “natural” rumo a uma melhoria sempre crescente, Morin nos propõe questionar um modelo de pensamento que conduziu a história na modernidade. Um paradigma insustentável, algo que hoje já percebemos ser o caminho para o esgotamento daquilo que nos mantém existindo. 

É aí que, finalmente, alcançamos a potente provocação no pensamento de Morin: ao invés de acharmos que lutamos contra a natureza, nós na verdade somos a sua consequência. Somos o resultado dos fenômenos caóticos de uma natureza e um universo sem propósito definido. Nós humanos vamos passar, talvez causando mudanças significativas no jeito como as coisas aconteciam na terra antes de nós, mas seremos só mais uma fase na complexa e imprevisível história do planeta. Ainda seremos parte de algo maior, mesmo achando durante todo esse tempo que nós é que tínhamos controle e razão sobre toda a imensidão da qual fazemos parte.

Não sei o que você pensa agora sobre isso caro leitor, mas eu considero a ideia reveladora. Assustadoramente sincera, coerente e uma lição de humildade.

O lugar além dos lugares

Tomemos a  proposta – essencialmente moderna – de progresso, como o modelo de pensamento que justificaria a tentativa humana de dominar a natureza. Existe, a respeito dessa proposta, uma série de questionamentos muito importantes levantados pelos povos indígenas, ou os povos tradicionais brasileiros: eles falam sobre a relação que seus ancestrais mantiveram com a terra, uma relação de respeito e cuidado, algo na contramão da insustentável e autodestrutiva proposta da modernidade. Não é à toa que esse modelo de pensamento concorreu com o pensamento vigente, e o resultado disso foi o modo como esses povos foram sistematicamente atacados e quase exterminados junto da natureza com a qual mantinham sua equilibrada relação. Um processo histórico que permanece imbricado na formação de nossa sociedade, criado em nome do progresso.

Recentemente o ambientalista e escritor Ailton Krenak, nos conta como vem justamente desses povos algumas “ideias para adiar o fim do mundo” (2019). Esse é inclusive o nome do seu livro, sobre pensamentos para adiar esse futuro de esgotamento que parece ser o destino da lógica progressista. Ailton pertence à etnia Krenak, um território indígena que vai do Nordeste brasileiro até o leste de Minas Gerais, Um território bastante reduzido durante a colonização.

Para o povo Krenak, a natureza é um local sagrado, no qual  eles têm experiências não apenas de sobrevivência, mas também de orientação para a vida. É na natureza que eles encontram inspiração para sonhar, cantar, curar, e para resolver questões práticas do cotidiano. Na visão de Krenak, porque seu povo considera a natureza como família, eles a respeitam, fazendo um uso consciente dos recursos que ela disponibiliza. Segundo ele “A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade” (p. 14). Krenak no permite perceber que a ameaça sofrida pelos indígenas não são um problema somente para seu povo mas para toda a existência humana. 

Chegamos ao ponto em que a questão ambiental tornou-se incontornável. O futuro que a proposta de progresso propõe é um futuro insustentável.

Mas, ainda assim, a criatividade que nos é pedida pelo mercado é moldada em função desse sistema, desse modo de funcionamento do mundo em que vivemos. É uma criatividade usada na moda, por exemplo, como método de reafirmação da cadeia de produção. No entanto, como explica Krenak, ao retomar a prática de harmonia que os povos originários propõe, retomamos também nossa capacidade de sonhar um outro futuro possível. Garantindo uma sustentabilidade ao invés de um esgotamento dos recursos que temos. Essa parece ser a tendência presente nos discursos de sustentabilidade agindo com força dentro e fora do mercado. Parece haver hoje uma tendência social em pensar na sustentabilidade. É cada vez mais difícil ignorar que esse olhar puramente exploratório dos recursos naturais é insustentável, e ameaça nossa própria existência no planeta.

Entendemos com Krenak que, se os processos criativos dependem da solução de problemas, estamos diante do maior problema para a manutenção da nossa espécie: inventar um jeito de existir sem destruir.  Desde os primeiros agrupamentos humanos buscamos sobreviver e usamos nossa criatividade para isso. Mas essa necessidade de sobrevivência é tão parte da nossa natureza quanto outra característica essencialmente humana: viver em sociedade. Como viviam as tribos em volta do antigo Nilo e como ainda sobrevivem os povos tradicionais em todo o mundo.

Com Morin podemos perceber que ainda que tenhamos inventado uma separação, seguimos sendo parte da natureza. Sendo assim, se ainda somos parte do todo, do mesmo jeito que inventamos uma separação, podemos inventar uma re-união. Reunião que começa entre nós mesmos, nos inspirando nas lições do povo Krenak, reatando e re-unindo nossos povos, nossas culturas. Algo que nasce da nossa imaginação, da nossa criatividade. Progresso precisa se transformar em sinônimo de sustentabilidade e Pós-modernidade deixar de significar distopia. 

Com isso em mente, encerro deixando algumas perguntas: o que vc escolhe fazer para alcançar esse mundo onde você e os outros conseguem conviver? Como fazer sua modificação individual para atingir o coletivo? Afinal, ao invés da questão: qual o seu lugar no mundo? A pergunta deveria ser: o mundo é o seu lugar. O que pretende fazer com isso?

Referências

Artigos on-line

A globalização não é um processo natural: Yuval Harari e o exemplo de como as tribos em redor do Nilo se organizaram para conseguir lidar com o rio. https://brasil.elpais.com/brasil/2019/11/07/cultura/1573083169_398296.amp.html

Ailton Krenak e as “ideias para adiar o fim do mundo” http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/593062-ailton-krenak-e-as-ideias-para-adiar-o-fim-do-mundo 

Como o atual ultranacionalismo está entendendo errado a questão do que é o nacionalismo https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2019/11/so-cooperacao-global-pode-nos-salvar-das-ameacas-do-seculo-21-diz-yuval-harari.html

Livros

Flusser, V. (2018). O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. Tradução: Raquel Abi-Sâmara São Paulo: Ubu Editora.

Harari, Y. N. (2015). Sapiens: uma breve história da humanidade. Tradução: Janaína Marcoantonio. Porto Alegre: L&PM.

Krenak, A. (2019). Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Editora Companhia das Letras. 

Morin, E. (2005). O paradigma perdido: ensayo de bioantropologia (1ª ed. 1973). Tradução: Domènec Bergadá Barcelona: Editorial Kairós.Ordine, Nuccio. A Utilidade do Inútil: um manifesto. tradução: Luiz Carlos Bombassaro. 1ª ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

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