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Não somos criativos sozinhos

Origens dos mundos

Há passagens nas histórias em que as lendas coincidem. Pequenos trechos, alguns detalhes, que se repetem nos mais diferentes e distantes contos sobre a criação.

Teria surgido aí o mundo inteiro, e com ele a própria criatividade.

Muitas vezes são elementais: ar, água, terra, fogo e espírito; outras vezes seres de imenso poder compartilham a invenção de tudo o que existe. Seres absolutos, esses elementais em cada história tem sempre uma razão de ser na criação, mas nunca estão sozinhos.

Se perguntássemos na antiguidade, seja  no centro da África, nos países gelados do Norte ou nas regiões que dariam origem à Grécia, poderíamos encontrar coincidências curiosas sobre a origem do mundo.

Enquanto lê os próximos parágrafos tente pensar em uma música épica tocando em sua mente, talvez algo da trilha sonora daquela trilogia de filmes: O Senhor dos Anéis.

Assim disse o sábio Griot

Decidido a colocar terra sólida sobre os pântanos sem vida de Olokun, Obatalá – a divindade da criação, foi instruído por Orunmilá – o próprio destino, e construiu o Aiyê. Olorun, o ser supremo, criou então o Sol; E Obatalá modelou os humanos no barro com a ajuda de Oduduá, com quem formou o casal propulsor da vida.

Ao norte, o trovador contava…

Na imensidão vazia de Ginnungagap não havia sequer areia, mar, céu ou terra. Até que surge um reino ao sul feito de fogo – Muspellheimr. E ao norte emanou o reino de ventos gelados, vento e neve – Niflheimr. No meio era o vácuo, até que fogo e gelo colidiram. Tudo era desordem. Mas das gotas deste grande caos, a vida emergiu, na forma de um gigante de gelo. Seu nome era Ymir e os gigantes de gelo são seus descendentes.

E às margens do Egeu, revelava o bardo…

Sobre o imenso corpo fértil de Gaia, os elementos antes em confusão começaram a se organizar, ocupando cada um seu lugar correto. Fogo, terra, água e ar deixaram a mistura caótica de onde vieram. E as curvas generosas de Gaia deram origem a colinas suaves, vales profundos, montes e montanhas. Sob a influência de Eros – o amor, Gaia sentiu o desejo: queria que suas férteis curvas fossem cobertas por um companheiro. Gaia gerou e gestou – sozinha – dois filhos que seriam também seus amantes. Urano – o céu estrelado, e Póntos – o mar salgado.

Acho que agora já estamos no clima certo, é chegada a hora de tentarmos explorar mais detidamente nosso tema retomando a questão que intitula o próximo momento desse texto.

Não somos criativos sozinhos?

Já pensou mesmo sobre isso? Eu tenho pensado sobre essa frase já tem algum tempo. E, sinceramente, não chego a conclusão nenhuma. Principalmente porque tenho viajado pensando nos jeitos diferentes que pode ser dita. Procura que significados surgem em sua mente quando lê: Não somos criativos sozinhos. Interrogação.

Eu consigo elencar algumas possibilidades. Acredito que é possível pensar em algo como:

Não somos criativos sozinhos? Como assim, claro que somos! Fica a ênfase no óbvio.

Não somos criativos sozinhos? Claro que somos. Eu não preciso de ninguém para criar! Já se destaca a importância, ou desimportância que o outro tem pra criar.

Não somos criativos, sozinhos? (juntos até que rola). Se eu estiver usando a frase de um jeito irônico.

Não somos criativos sozinhos? Não sei, o que você acha? Se eu quiser tirar o corpo fora e passar para você o problema.

Você consegue visualizar algo mais?

Isso só me fez ficar mais confuso. Porque no fundo, também pode ser que todo ato de criação – apesar de envolver muita gente – acaba sempre sendo um ato profundamente solitário.

Porque para criar a gente precisa – e muito – de referências, de conversas, de trocas de ideias, influências, resistências, disputas, embates, brigas e até discussões. Mas no fim, para a tal coisa criativa surgir, tiveram de existir muitas horas dedicadas. Horas nas quais você, caro leitor, esteve focado, gastando tempo e esforço, seja sentado na cadeira ou suando em volta da sua obra. Completamente só.

Mesmo aquela jogada brilhante que só foi possível graças ao passe genial e milhares de horas de treinos em grupo, foi o resultado – único, irrepetível e solitário – de uma só pessoa; que também é única, irrepetível e solitária. Pelo menos naquele momento genial e criativo.

Embora a divagação seja importante para introduzir nosso argumento, podemos agora trazer outra voz para o nosso diálogo.

Como viver junto

Tem um cara que conheci lá na faculdade de comunicação, o nome dele é Gérard. Acho massa esse nome, Gérard, muito simpático. Mas a galera costuma chamá-lo mesmo de Barthes. Roland Gérard Barthes é o nome completo dele. Vou ficar com Gérard porque eu acho mais legal.

Gérard foi um escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês. Seu trabalho é uma referência incontornável para as áreas da comunicação e das artes, principalmente para a fotografia. É dele um livro famoso chamado A câmara clara: notas sobre a fotografia (BARTHES, 1984), que discute importantes aspectos estruturais e filosóficos do tema, mas eu queria mesmo era falar de outra obra escrita por ele: refiro-me ao livro que tem um título bastante adequado para a nossa conversa.

Trata-se da obra Como viver junto: simulações romanescas de alguns espaços cotidianos (BARTHES, 2003).

Esse livro explora de um jeito muito legal de entender a atitude de viver junto. Ele não fala de todas as formas disso acontecer, como sociedades, agrupamentos, famílias ou casais. Há isso também, mas a proposta é mais sobre o “viver junto” de grupos muito restritos, nos quais a coabitação não exclui a liberdade individual. O Gérard vai observar grupos monásticos medievais, aqueles que tinham um jeito de se organizar que tentava justamente conciliar vida coletiva e individual. A partir dessa ideia quase que antagônica – como várias individualidades viram uma comunidade sem deixar de serem únicos – ele mostra pra gente o conceito de “idiorritmia”.

Essa “idiorritmia” inclusive era um conceito usado por esses religiosos, os monges.

Se formos ao dicionário podemos conferir a etimologia da palavra, e veremos que ídios quer dizer próprio, e rhythmós é ritmo mesmo. Aliás, esse ídios lembra outra palavra: idiota. Vi que o professor Mario Sergio Cortella tem uma fala explicando a origem, ele conta que para os gregos da Antiguidade Clássica “idiota” era o sujeito que, mesmo sendo capaz de participar da vida pública, escolhia ficar de fora. O cara literalmente decidia se excluir de algo que o implica diretamente. Parece mesmo uma atitude idiota. Engraçado que atualmente quem se interessa pelos assuntos públicos é que é chamado de idiota, ou chato. Interessar-se por política, para muitos hoje, não é normal. Acho estranho. Mas para os monges estudados pelo Gerárd, a relação entre o público e o privado era importante. A tal idiorritmia, o “próprio ritmo”, era mesmo um conceito ao qual eles se dedicavam.

Segundo Gerárd, a idiorritimia era o modo de vida daquele grupo, monges do monte Atos, que – no século X – viviam sós e com liberdade na organização de suas tarefas, mantendo apenas alguns elos com o mosteiro. Na prática eles se isolavam e procuravam falar o mínimo possível, as vezes fazendo mesmo voto de silêncio. Passavam o dia em orações e penitências individuais e só se reuniam para rezar. Era uma comunidade de gente que vivia só. Não acha isso no mínimo curioso?

O livro do Gérard foi o resultado de uma série de aulas que deu em  1977, nessas aulas ele refez o conceito de idiorritmia, pensando nos espaços cotidianos. Ele entendeu que já nessa época nós, enquanto sociedade, caminhávamos em direção a um modo de vida similar à idiorritmia. Uma comunidade de “gente só” ou “a utopia de um socialismo das distâncias”. Ele acabou então fazendo os encontros em volta da pergunta: “a que distância dos outros devo manter-me, para construir com eles uma sociabilidade sem alienação, uma solidão sem exílio?”. Pensamento que mexe diretamente com a nossa intenção nesse texto. 

Se você leu ou for ler o livro talvez entenda melhor do que eu, mas tem uma ideia dessa conversa toda que me impressionou consideravelmente: com essa pergunta, sobre como se faz solidão sem exílio, Gérard consegue perceber a impossibilidade de estar só. Ele aponta algo que, de tão simples, chega a ser engraçado: o exílio, ou a ideia pura de exílio, é impossível. 

Essa impossibilidade se explica pelo simples fato de que a ideia de estar só, por si, implica num outro do qual se quer distância ou isolamento. Ou seja, temos um outro com a gente mesmo quando buscamos ficar sozinhos. Nesse sentido, nunca estamos sós. E a criatividade tem tudo a ver com isso.

A criatividade é um processo coletivo

A essa altura você já percebeu o que a gente quer mesmo aqui dizer. Pois é, não somos mesmo criativos sozinhos.

Se resgatarmos o que discutimos até agora é possível reunir três ideias.

Primeiro, nas antigas lendas, quando a humanidade tentava explicar como as coisas foram criadas, em cada história, sejam deuses ou o que quer que seja; o criativo nunca está só.

Na segunda ideia, inclusive questionamos isso, tentando fazer o advogado do diabo e defendendo a ideia de que sim, no fim das contas quem faz mesmo a coisa, o tal gesto criativo é você – depois de passar por todo um processo cercado de gente –, mas só. Mas não é um pensamento justo. Existe um truque aí. Eu omiti a última etapa de algo que – como já foi debatido na primeira temporada do esticando a baladeira – é um complexo e intrigante processo.

É nesse ponto que encontramos com a contribuição De Roland Gerárd Barthes. O conceito de idiorritmia nos faz perceber o conceito de solidão mais como uma ideia do que como uma prática. Não se pratica solidão, se sente. Mesmo buscando a solidão já levamos em consideração os outros.

Nos três momentos desse texto tentamos tratar de jeitos diferentes um mesmo assunto. Usamos as mitologias, advogamos contra, e filosofamos a partir do raciocínio lógico de um autor renomado. No fim, cada um desses momentos tinham a intenção de defender a seguinte constatação: nossa criatividade leva com ela um grande e importante bocado de gente.

Porque quando você está ouvindo uma música, apreciando arte, pegando referências, você se relaciona com a obra de outros, recebe ideias de outras pessoas. É preciso se conectar com o mundo para detectar os problemas a serem resolvidos. 

Criar acontece em relação, e como toda relação, provoca incômodo. Nos desloca, estimula nossa imaginação, ou pelo menos nos faz pensar melhor sobre algo; 

Os processos criativos estão associados a múltiplos elementos, atuando em conjunto e produzindo um jeito diferente de articulação. 

E um jeito diferente de realizar a partir do que já existe é, justamente, a base da atividade criativa.

A criatividade é sim um processo coletivo. E que bom que é assim, né? Porque de outro jeito seria simplesmente muito chato.

Referências

Barthes, Roland. Como viver junto: simulações romanescas de alguns espaços cotidianos. Tradução de Leyla Perrone Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BARTHES, Roland. A câmara clara: notas sobre a fotografia. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

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