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Criatividade para mudar a política

“Toda Causa tem o seu Efeito; todo Efeito tem a sua Causa; tudo ocorre de acordo com a Lei; (…)

As massas de pessoas são carregadas adiante, de acordo com o ambiente onde vivem, com os desejos e as vontades dos mais fortes, que lhes superam. A hereditariedade, as ideias prontas e outras causas que lhes são externas as movimentam pra lá e pra cá, como peões no Xadrez da Vida. Os Mestres, porém, elevando mentalmente a si mesmos para planos superiores, dominam o seu humor, seu caráter, suas qualidades e capacidades, assim como ao próprio ambiente a sua volta, e se tornam Jogadores ao invés de peões.” (O Caibalion)

Compartilhando o imaginário

A arte é importante porque facilita nossa compreensão do caos que é a realidade.

Pensar nisso me faz lembrar de um filme ao mesmo tempo caótico e profundamente real: Mad Max: estrada da fúria, do diretor australiano George Miller.

Naquele cenário pós apocalíptico o mundo foi jogado numa realidade de escassez de recursos onde falta inclusive água para a população. Numa pequena comunidade de pessoas miseráveis e sedentas, um governante violento, Immortan Joe, controla o modo como as pessoas têm acesso aos recursos que garantem suas vidas.

Em uma das cenas que representam esse controle o tirânico líder oferece poucos minutos de acesso à água para as pessoas e, enquanto o faz, dita para que todos ouçam um discurso sobre os perigos da água, como ela pode viciar, como não devem sucumbir à tentação de tornarem-se viciados no que chamam de Aqua cola. Numa clara referência à outro vício relativamente comum hoje em dia.

“Nunca, meus amigos, fiquem viciados em água. Vocês sentirão muito a sua falta”.

Pensamento absurdo, mas perfeitamente encaixado numa lógica que já foi usada por muitas instituições religiosas e também por governos supostamente democráticos. Essa lógica de distorcer a realidade em favor de um discurso que favoreça seus próprios interesses é uma ferramenta de manipulação das opiniões alheias tão antiga quanto a própria humanidade, e que se estabelece justamente na atuação política da pequena parcela de uma população sobre uma grande maioria que está ocupada demais com a própria sobrevivência para atuar ativamente em resposta a esse controle. É jogando com o imaginário social que grande parte dessa dominação se mantém.

Mas de que tipo de imaginário estamos falando? E o que isso tem a ver com política e criatividade? Para tentar responder a essas questões será preciso antes estabelecer o terreno sobre o qual nos debruçamos para apresentar nossos argumentos, o espaço onde a política e a criatividade atuam e sobre o qual tem imensa influência: o terreno do imaginário.

Mas o imaginário ao qual me refiro não é o mesmo que se percebe no senso comum: não se trata de uma imagem mental que somos capazes de formar conscientemente; tampouco é o sentido usado pelo famoso psicanalista francês Jacques Lacan, de algo irrepresentável, da ordem da alucinação e em contraste com o real. O imaginário que quero tratar diz respeito ao sentido descrito pelo poeta Edouárd Glissant no livro Poética da relação (1997). Segundo ele, quando fala de imaginário está se referindo  ao conjunto de “todos os modos que uma cultura tem de perceber e conceber o mundo” (Glissant, 1997, p. xxii). Isso pode ser melhor entendido se fizermos uma breve digressão.

O significado que atribuímos às palavras surgem de convenções culturais. Palavras como “governo” e “política” já existiam quando nasci, e, justamente por isso, até começar a questionar sobre suas origens às tratei como se fossem naturais, como se fossem independentes do ser humano para existir e sempre estivessem aí, no mundo. Mas, se encararmos uma perspectiva histórica cultural, palavras e ideias parecem fazer parte da imaginação, uma imaginação tão forte, que assumimos como realidade. Nessa atitude de aceitação da realidade – que pode ou não ser consciente – nos submetemos a uma série de regras que regem a vida em sociedade, e que, por conseguinte, definem nossa noção do que é real. A ideia de dinheiro é um exemplo disso. Sejam papéis, metais ou simplesmente números aparecendo em uma tela, o dinheiro define se temos mais ou menos poder de comprar as coisas. Simplesmente confiamos na ideia de que isso faz sentido e é real, porque “acreditamos” que sempre foi assim, e isso basta.

As regras que definem nossa sociedade fazem parte dessa imaginação compartilhada, que ajudam a construir os aspectos formadores de nossa cultura, o modo como construímos nossa própria individualidade e até mesmo o nosso conceito de nação. Isso se baseia, em parte, na proposta de Benedict Anderson (1989) sobre as Comunidades Imaginadas. Quando apresenta seu conceito de nação o autor escreve:

uma comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana. (…) é imaginada porque mesmo os membros da mais minúscula das nações jamais conhecerão, encontrarão ou nem sequer ouvirão falar da maioria de seus companheiros, embora todos tenham em mente a imagem viva da comunhão entre eles. (Anderson, 1989, p. 32)

Outro importante exemplo disso – que aponta para o que esse texto pretende discutir – é a ideia de democracia. Na proposta de uma sociedade democrática a ideia é a de que se exige participação de todos para se realizar a democracia. O que vemos acontecer na prática é que nem todos assumem essa responsabilidade de participar das decisões políticas. Mais tragico ainda é a falta consciência dessa responsabilidade. E, quando relaxamos, quando não nos importamos com a política, acabamos deixando outros tomarem o poder de decidir nossas vidas. Não existe vazio na política, o espaço de poder sempre é ocupado por “alguéns”! Despolitizar as pessoas é um jeito de criar essa desistência, os vácuos a serem ocupados. Isso pode ser feito usando as grandes ferramentas de comunicação de massa; e também utilizando as tais notícias falsas, capazes de mobilizar todo um imaginário social, contra ou a favor de determinadas ideologias. Fazer você pensar que todo político é corrupto, que a política é suja e você não deveria se envolver com isso, é um jeito de te deixar de fora, um jeito de garantir que quem exerce real poder continue nessa condição e ainda aumente sua diferença em relação a quem não tem poder algum. Essa é uma forma perigosa de se usar a força que mídias como a TV e a internet representam. Uma força potencialmente devastadora e um poder que atua, basicamente, a partir do nosso imaginário. 

Administrando os espaços da política

A política trata da ocupação de diferentes espaços de poder. Essa ideia se explica quando imaginamos os modos como a política atua na sociedade. Existe a Política do cotidiano e a política institucionalizada: o espaço político nosso e aquele ocupado pelas pessoas eleitas por nós. Percebe aí que parece existir uma espécie de divisão relacionada ao pertencimento? Como se o espaço que deveria pertencer a todos tivesse sido quase que tomado por uma parcela de pessoas, uma parcela que costuma se esforçar ao máximo para manter os privilégios que vêm com o domínio desse espaço?

Essa noção de pertencimento é algo que mexe com a nossa criatividade, justamente porque se refere ao gerenciamento e à administração da vida em sociedade. Algo que só é possível graças à nossa capacidade de inventar soluções para o conjunto dinâmico de complexidades do cotidiano em sociedade. A aplicação do sistema político democrático encontra seus limites quando se depara com essa realidade.  Porque  pessoas vivendo em grupo geram problemas, e é dos problemas que surgem as ideias criativas. Nesse sentido uma pista para tornar-se ativo na disputa pelo espaço das questões públicas seria inventar novas formas de gerir as questões sociais, ser um cidadão (cri)ativo. Para explorar essa opção podemos recorrer a um dos trabalhos do filósofo italiano Giorgio Agamben, especificamente a sua noção de oikonomia.

Oikonomia em grego quer dizer “economia”. O termo inicialmente se referia à gestão da casa, mas com o tempo passou também a significar outras formas de gestão, mais improvisadas, como a gestão das emoções do público em um discurso político, por exemplo, ou a gestão de conflitos numa nação multicultural. Agamben disse no seu livro O reino e a glória (2011) que os teólogos cristãos quando discutiam sobre as regras que regem o catolicismo, costumavam fazer referência a essa tal oikonomia, a gestão e a administração de um conjunto de práticas e relações. Agamben também diz em sua análise do conceito que o próprio Deus, segundo o dogma cristão, praticava a oikonomia. Segundo o autor, Deus tem que “administrar” sua relação com a Criação, o que significa, “administrar” a relação de Deus com o próprio Deus. Ele se referia à ideia da santíssima trindade. A vida interior de Deus – a trindade – tem a sua própria “economia”, que permite que a mesma administre sua “economia da salvação”. Seria então uma oikonomia trinitária. A administração da complicada forma de ser de Pai, Filho e Espírito Santo, três em um.

Podemos entender que essa foi uma das várias ações dos conselhos monásticos responsáveis pela administração da Igreja Católica em seu período de formação como a gigantesca instituição que viria a se tornar. A oikonomia foi um dos modos como os estudiosos da fé organizaram o entendimento dos dogmas católicos, na tentativa de pôr em ordem contradições presentes no encontro entre as diferentes interpretações dos textos bíblicos que surgiram quando a igreja se espalhou pelo mundo.

Administrando a política nos espaços

O mistério da santíssima trindade é um dos melhores exemplos de como administrar contradições. Segundo Giorgio Agamben, a vida interior de Deus – a trindade – tem a sua própria “economia”, a administração da complicada forma de ser de Deus, pai, filho e espírito santo ao mesmo tempo, três em um. É nesse ponto que nos encontramos com a relação entre política e criatividade. Tentemos acompanhar o raciocínio construído para a trindade, aplicando-o ao modo como percebemos o gerenciamento da vida em sociedade no mundo contemporâneo.

O ponto de conexão entre a oikonomia trinitária e o jeito mais comum de governo no ocidente hoje não é a administração da Trindade, mas o seu desenvolvimento no paradigma da providência. Essa doutrina retrata o governo ou a gestão que Deus faz do mundo como fundamentalmente econômica, o que significa que Deus prefere usar meios indiretos para alcançar seus objetivos. Deus não nos obriga a nada. Em vez disso, Deus opera pelo nosso livre arbítrio, que Ele indiretamente manipula para atingir seus objetivos. Alguns exemplos disso estão em descritos nos textos bíblicos: “você pode fazer o que quiser, mas comer daquela maçã é proibido”, ou então, “façam o que quiserem, mas se exagerarem vou mandar um dilúvio”. São exemplos imperfeitos, mas é assim que, supostamente, a economia moderna trabalha, já que todas as nossas escolhas contribuem para resultados sentidos devido à intervenção da mão invisível (que, na verdade, seria uma versão secularizada da mão de Deus, como Agamben explica).

Assim, tanto Deus quanto o governo nos controlam através do nosso livre arbítrio, isto é, a gente faz o que quiser mas isso tem consequências que na prática alimentam um sistema de funcionamento social que mantém poucos explorando muitos. Ou seja, quando a ideia que vale é “cada um por si” o resultado costuma ser uma minoria concentrando privilégios às custas de muitos. Cada um por si, Deus (e o Leviatã) contra todos! Nessa lógica, as nossas escolhas com resultados negativos seriam o “efeito colateral” do sistema. No sistema teológico, Deus faz uso do dano colateral para extrair o bem do mal – “há males que vem para o bem”. Já o sistema secular de governo pode utilizar certos tipos de “danos colaterais” (por exemplo, o modus operandi do capitalismo, que, por vezes, deixa as pessoas carentes e sem-teto) como um estímulo a uma maior obediência e produtividade das pessoas que temem tornar-se “danos colaterais” a si mesmos. É como se o que me fizesse jogar esse jogo sujo fosse o medo de ser eu o explorado no processo. E pra evitar isso eu tenho que procurar ser o explorador. Mas aí eu pergunto: e se eu aprendesse as regras e começasse a propor novos jeitos de jogar? Eis o espaço para a criatividade.

Partilhando a criatividade

A partir do trabalho de Agamben podemos comparar a interpretação católica para a atuação de Deus no gerenciamento da criação com a mão invisível da economia capitalista, tão defendida pelas correntes de pensamento neoliberais. Destaco nessa formulação uma lógica reveladora para a sociedade ocidental contemporânea: seguimos tratando nossa relação com o mundo com base em como imaginávamos essa relação na idade média. E fazemos política do mesmo  jeito. Como base nas ideias imaginadas antes de nós nascermos e que acabam controlando nossas vidas.

A boa notícia? Segundo minha própria avaliação é o seguinte: se vivemos sob esse controle baseado em imaginação tornada realidade, seria perfeitamente possível tomarmos esse controle e criar nossa própria realidade, nosso próprio jeito de fazer política. Seja como um artista que denuncia práticas perversas do governo, como o jornalista que investiga e comunica essas práticas; ou como o cidadão que faz questão de acompanhar e cobrar seu candidato, ou ainda sendo aquele que decide se filiar a um partido e se tornar ele mesmo um candidato sério, aquele que exercita pacientemente a capacidade de ouvir e conviver com quem pensa diferente, ou também como o pai e a mãe que decidem garantir que a educação de seus filhos tenha sempre a conscientização política e a responsabilidade social da convivência.

Fazer política é assumir o controle e não se deixar ser controlado. Fazer política é ocupar os espaços; estar atento e consciente da responsabilidade da vida coletiva. “A democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros”, teria dito Winston Churchill. A beleza da democracia é que ela sempre está em disputa, requer a nossa atenção e colaboração. Viver na democracia é assumir um compromisso contínuo com a criatividade, afinal precisamos resolver os problemas que criamos.  Seja no sistema democrático, ou em outro que sequer foi inventado ainda, cabe a você e a todos nós assumir a política em nossas vidas. Conviver é um exercício criativo! Precisamos treinar. 

Referências

Artigo on-line

Oikonomia trinitária enquanto paradigma da máquina governamental http://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/6876-oikonomia-trinitaria-enquanto-paradigma-da-maquina-governamental 

Filme

Voeten, P. J., Mitchell, D. (Producers) & Miller, G. (Producer/Director). (2015). Mad Max: fury road [Motion Picture]. United States: Warner Bros. Pictures.

Livros

Agamben, G. (2015). O reino e a glória: Uma geneaolgia teológica da economia e do governo [Homo Sacer, II, 2]. Boitempo Editorial.

Glissant, E. (1997). Poetics of Relation (B. Wing, trans.). Ann Arbor: University of Michigan Press. https://doi.org/10.3998/mpub.10257
Said, E. W. (2000). Representações do intelectual: as palestras de Reith de 1993 (1th ed.; T. Seruya, ed.; S. C. José Reis Leal, Inês Castro, Patrícia Palroz, Alcino Malalane, Ana Sofia Pereira, Ana Catarina Martins, Marta Mendonça, Ana Teresa Pinto, Ana João Trindade, Aiana Vieira, trans.). Lisboa: Edições Colibri.

Fortaleza, cidade criativa! #06 – Uma Fortaleza, várias cidades

Chegamos ao nosso 6º e último episódio dessa temporada incrível que contou com o apoio da Lei Aldir Blanc, pela Secultfor. Para finalizar, contamos com a ilustre voz de Demitri Túlio, jornalista formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Demitri é repórter especial e cronista com experiência em redações desde 1996. Já atuou em quase todas as áreas de cobertura do jornalismo, com destaque para segurança pública, cotidiano e Semiárido. É vencedor de mais de 40 prêmios e possui uma forma de ver Fortaleza que é uma verdadeira aula de sensibilidade.

Fortaleza, Cidade Criativa! #05 – Fortaleza, a cidade das pessoas

O nosso 5º episódio irá tratar da poesia que envolve o conceito de cidade, afinal a cidade não é feita só de asfalto e prédios, ela também é feita pelas pessoas que a vivem. O tema de hoje é “Fortaleza, a cidade das pessoas”. Nesse episódio contamos com a voz de Fernanda Meireles, escritora, artista visual e educadora. Graduada em Letras, especialista em Arte-Educação e mestre em Comunicação Social, trabalha com, cria e pesquisa zines, redes de comunicação, leitura, antropologia da escrita, Fortaleza (a Cidade Solar), novas literaturas e alfabetização visual. Sua arte está literalmente estampada em belíssimos quadros, canecas, postais, livretos, zines e outros apetrechos decorativos e afetivos na sua Loja sem Paredes.

Fortaleza, Cidade Criativa! #04 – Arte para criar a cidade

Neste quarto episódio, iremos conversar sobre as possibilidades da arte criar a cidade que queremos. E para isso, contamos com a participação do artista-cientista-inventor cearense Narcélio Grud, um verdadeiro apaixonado pela cinética, que explora em suas obras a interação com o ambiente e as pessoas. Já realizou instalações eólicas na orla da praia em Fortaleza, já criou esculturas sonoras que permitiam a interação do público de formas bem inusitadas, além de seus grandes projetos para parques e praças e em seus instrumentos musicais e bicicletas.

Fortaleza, Cidade Criativa! #03 – Criatividade na Periferia

Neste episódio contamos com a voz de Preto Zezé, presidente global da Central Única das Favelas – CUFA, uma rede de jovens das favelas empenhados na defesa dos direitos dos moradores das comunidades através de ações sociais e culturais e que hoje está representado em 17 países. Conversamos com ele sobre de que forma a criatividade está presente na periferia e como ela interfere no cotidiano das comunidades. Bora lá, que essa conversa está muito massa!

Fortaleza, Cidade Criativa do Design pela UNESCO – com Alberto Gadanha #02

Neste 2º episódio desta temporada com apoio da Lei Aldir Blanc, conversamos com Alberto Gadanha, designer gráfico e professor. Coordena projetos de inovação no Instituto Iracema e atua como ponto focal da Rede de Cidades Criativas da UNESCO representando Fortaleza na área do Design.

Não somos criativos sozinhos

Origens dos mundos

Há passagens nas histórias em que as lendas coincidem. Pequenos trechos, alguns detalhes, que se repetem nos mais diferentes e distantes contos sobre a criação.

Teria surgido aí o mundo inteiro, e com ele a própria criatividade.

Muitas vezes são elementais: ar, água, terra, fogo e espírito; outras vezes seres de imenso poder compartilham a invenção de tudo o que existe. Seres absolutos, esses elementais em cada história tem sempre uma razão de ser na criação, mas nunca estão sozinhos.

Se perguntássemos na antiguidade, seja  no centro da África, nos países gelados do Norte ou nas regiões que dariam origem à Grécia, poderíamos encontrar coincidências curiosas sobre a origem do mundo.

Enquanto lê os próximos parágrafos tente pensar em uma música épica tocando em sua mente, talvez algo da trilha sonora daquela trilogia de filmes: O Senhor dos Anéis.

Assim disse o sábio Griot

Decidido a colocar terra sólida sobre os pântanos sem vida de Olokun, Obatalá – a divindade da criação, foi instruído por Orunmilá – o próprio destino, e construiu o Aiyê. Olorun, o ser supremo, criou então o Sol; E Obatalá modelou os humanos no barro com a ajuda de Oduduá, com quem formou o casal propulsor da vida.

Ao norte, o trovador contava…

Na imensidão vazia de Ginnungagap não havia sequer areia, mar, céu ou terra. Até que surge um reino ao sul feito de fogo – Muspellheimr. E ao norte emanou o reino de ventos gelados, vento e neve – Niflheimr. No meio era o vácuo, até que fogo e gelo colidiram. Tudo era desordem. Mas das gotas deste grande caos, a vida emergiu, na forma de um gigante de gelo. Seu nome era Ymir e os gigantes de gelo são seus descendentes.

E às margens do Egeu, revelava o bardo…

Sobre o imenso corpo fértil de Gaia, os elementos antes em confusão começaram a se organizar, ocupando cada um seu lugar correto. Fogo, terra, água e ar deixaram a mistura caótica de onde vieram. E as curvas generosas de Gaia deram origem a colinas suaves, vales profundos, montes e montanhas. Sob a influência de Eros – o amor, Gaia sentiu o desejo: queria que suas férteis curvas fossem cobertas por um companheiro. Gaia gerou e gestou – sozinha – dois filhos que seriam também seus amantes. Urano – o céu estrelado, e Póntos – o mar salgado.

Acho que agora já estamos no clima certo, é chegada a hora de tentarmos explorar mais detidamente nosso tema retomando a questão que intitula o próximo momento desse texto.

Não somos criativos sozinhos?

Já pensou mesmo sobre isso? Eu tenho pensado sobre essa frase já tem algum tempo. E, sinceramente, não chego a conclusão nenhuma. Principalmente porque tenho viajado pensando nos jeitos diferentes que pode ser dita. Procura que significados surgem em sua mente quando lê: Não somos criativos sozinhos. Interrogação.

Eu consigo elencar algumas possibilidades. Acredito que é possível pensar em algo como:

Não somos criativos sozinhos? Como assim, claro que somos! Fica a ênfase no óbvio.

Não somos criativos sozinhos? Claro que somos. Eu não preciso de ninguém para criar! Já se destaca a importância, ou desimportância que o outro tem pra criar.

Não somos criativos, sozinhos? (juntos até que rola). Se eu estiver usando a frase de um jeito irônico.

Não somos criativos sozinhos? Não sei, o que você acha? Se eu quiser tirar o corpo fora e passar para você o problema.

Você consegue visualizar algo mais?

Isso só me fez ficar mais confuso. Porque no fundo, também pode ser que todo ato de criação – apesar de envolver muita gente – acaba sempre sendo um ato profundamente solitário.

Porque para criar a gente precisa – e muito – de referências, de conversas, de trocas de ideias, influências, resistências, disputas, embates, brigas e até discussões. Mas no fim, para a tal coisa criativa surgir, tiveram de existir muitas horas dedicadas. Horas nas quais você, caro leitor, esteve focado, gastando tempo e esforço, seja sentado na cadeira ou suando em volta da sua obra. Completamente só.

Mesmo aquela jogada brilhante que só foi possível graças ao passe genial e milhares de horas de treinos em grupo, foi o resultado – único, irrepetível e solitário – de uma só pessoa; que também é única, irrepetível e solitária. Pelo menos naquele momento genial e criativo.

Embora a divagação seja importante para introduzir nosso argumento, podemos agora trazer outra voz para o nosso diálogo.

Como viver junto

Tem um cara que conheci lá na faculdade de comunicação, o nome dele é Gérard. Acho massa esse nome, Gérard, muito simpático. Mas a galera costuma chamá-lo mesmo de Barthes. Roland Gérard Barthes é o nome completo dele. Vou ficar com Gérard porque eu acho mais legal.

Gérard foi um escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês. Seu trabalho é uma referência incontornável para as áreas da comunicação e das artes, principalmente para a fotografia. É dele um livro famoso chamado A câmara clara: notas sobre a fotografia (BARTHES, 1984), que discute importantes aspectos estruturais e filosóficos do tema, mas eu queria mesmo era falar de outra obra escrita por ele: refiro-me ao livro que tem um título bastante adequado para a nossa conversa.

Trata-se da obra Como viver junto: simulações romanescas de alguns espaços cotidianos (BARTHES, 2003).

Esse livro explora de um jeito muito legal de entender a atitude de viver junto. Ele não fala de todas as formas disso acontecer, como sociedades, agrupamentos, famílias ou casais. Há isso também, mas a proposta é mais sobre o “viver junto” de grupos muito restritos, nos quais a coabitação não exclui a liberdade individual. O Gérard vai observar grupos monásticos medievais, aqueles que tinham um jeito de se organizar que tentava justamente conciliar vida coletiva e individual. A partir dessa ideia quase que antagônica – como várias individualidades viram uma comunidade sem deixar de serem únicos – ele mostra pra gente o conceito de “idiorritmia”.

Essa “idiorritmia” inclusive era um conceito usado por esses religiosos, os monges.

Se formos ao dicionário podemos conferir a etimologia da palavra, e veremos que ídios quer dizer próprio, e rhythmós é ritmo mesmo. Aliás, esse ídios lembra outra palavra: idiota. Vi que o professor Mario Sergio Cortella tem uma fala explicando a origem, ele conta que para os gregos da Antiguidade Clássica “idiota” era o sujeito que, mesmo sendo capaz de participar da vida pública, escolhia ficar de fora. O cara literalmente decidia se excluir de algo que o implica diretamente. Parece mesmo uma atitude idiota. Engraçado que atualmente quem se interessa pelos assuntos públicos é que é chamado de idiota, ou chato. Interessar-se por política, para muitos hoje, não é normal. Acho estranho. Mas para os monges estudados pelo Gerárd, a relação entre o público e o privado era importante. A tal idiorritmia, o “próprio ritmo”, era mesmo um conceito ao qual eles se dedicavam.

Segundo Gerárd, a idiorritimia era o modo de vida daquele grupo, monges do monte Atos, que – no século X – viviam sós e com liberdade na organização de suas tarefas, mantendo apenas alguns elos com o mosteiro. Na prática eles se isolavam e procuravam falar o mínimo possível, as vezes fazendo mesmo voto de silêncio. Passavam o dia em orações e penitências individuais e só se reuniam para rezar. Era uma comunidade de gente que vivia só. Não acha isso no mínimo curioso?

O livro do Gérard foi o resultado de uma série de aulas que deu em  1977, nessas aulas ele refez o conceito de idiorritmia, pensando nos espaços cotidianos. Ele entendeu que já nessa época nós, enquanto sociedade, caminhávamos em direção a um modo de vida similar à idiorritmia. Uma comunidade de “gente só” ou “a utopia de um socialismo das distâncias”. Ele acabou então fazendo os encontros em volta da pergunta: “a que distância dos outros devo manter-me, para construir com eles uma sociabilidade sem alienação, uma solidão sem exílio?”. Pensamento que mexe diretamente com a nossa intenção nesse texto. 

Se você leu ou for ler o livro talvez entenda melhor do que eu, mas tem uma ideia dessa conversa toda que me impressionou consideravelmente: com essa pergunta, sobre como se faz solidão sem exílio, Gérard consegue perceber a impossibilidade de estar só. Ele aponta algo que, de tão simples, chega a ser engraçado: o exílio, ou a ideia pura de exílio, é impossível. 

Essa impossibilidade se explica pelo simples fato de que a ideia de estar só, por si, implica num outro do qual se quer distância ou isolamento. Ou seja, temos um outro com a gente mesmo quando buscamos ficar sozinhos. Nesse sentido, nunca estamos sós. E a criatividade tem tudo a ver com isso.

A criatividade é um processo coletivo

A essa altura você já percebeu o que a gente quer mesmo aqui dizer. Pois é, não somos mesmo criativos sozinhos.

Se resgatarmos o que discutimos até agora é possível reunir três ideias.

Primeiro, nas antigas lendas, quando a humanidade tentava explicar como as coisas foram criadas, em cada história, sejam deuses ou o que quer que seja; o criativo nunca está só.

Na segunda ideia, inclusive questionamos isso, tentando fazer o advogado do diabo e defendendo a ideia de que sim, no fim das contas quem faz mesmo a coisa, o tal gesto criativo é você – depois de passar por todo um processo cercado de gente –, mas só. Mas não é um pensamento justo. Existe um truque aí. Eu omiti a última etapa de algo que – como já foi debatido na primeira temporada do esticando a baladeira – é um complexo e intrigante processo.

É nesse ponto que encontramos com a contribuição De Roland Gerárd Barthes. O conceito de idiorritmia nos faz perceber o conceito de solidão mais como uma ideia do que como uma prática. Não se pratica solidão, se sente. Mesmo buscando a solidão já levamos em consideração os outros.

Nos três momentos desse texto tentamos tratar de jeitos diferentes um mesmo assunto. Usamos as mitologias, advogamos contra, e filosofamos a partir do raciocínio lógico de um autor renomado. No fim, cada um desses momentos tinham a intenção de defender a seguinte constatação: nossa criatividade leva com ela um grande e importante bocado de gente.

Porque quando você está ouvindo uma música, apreciando arte, pegando referências, você se relaciona com a obra de outros, recebe ideias de outras pessoas. É preciso se conectar com o mundo para detectar os problemas a serem resolvidos. 

Criar acontece em relação, e como toda relação, provoca incômodo. Nos desloca, estimula nossa imaginação, ou pelo menos nos faz pensar melhor sobre algo; 

Os processos criativos estão associados a múltiplos elementos, atuando em conjunto e produzindo um jeito diferente de articulação. 

E um jeito diferente de realizar a partir do que já existe é, justamente, a base da atividade criativa.

A criatividade é sim um processo coletivo. E que bom que é assim, né? Porque de outro jeito seria simplesmente muito chato.

Referências

Barthes, Roland. Como viver junto: simulações romanescas de alguns espaços cotidianos. Tradução de Leyla Perrone Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BARTHES, Roland. A câmara clara: notas sobre a fotografia. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

Fortaleza, Cidade Criativa! #01

Começamos a nova temporada Esticando a Baladeira – Fortaleza, cidade criativa! Está no ar o primeiro episódio da temporada especial apoiada pela Lei Aldir Blanc, por meio da Secretaria de Cultura de Fortaleza – Secultfor. Nele, nós explicamos o que é o projeto e o que mais ele envolve além de podcasts! Acompanhe com a gente!

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